Crítica Musical: Festival “Monsters of Rock” acertou em cheio na escolha do line up

Sábado de sol e calor extremo. Talvez esse fosse o elemento principal do cenário do primeiro dia de Monsters of Rock em São Paulo, no último final de semana. Nas filas, na pista e nos espaços dedicados ao evento, os comentários eram os mesmo a respeito do clima. Mas nem isso foi capaz de espantar a multidão, que se acotovelou durante boa parte do tempo por um lugar mais próximo de seus ídolos, em um dia dedicado ao New Metal.

Minha primeira impressão ao chegar na Arena Anhembi foi que a organização se preocupou em fazer muito mais do que o clichê que ocupa os espaços dedicados aos festivais de rock. Além das tradicionais barracas de comidas e bebidas (como sempre, caríssimas), havia algumas lojas de roupa, trazidas da Galeria do Rock, um estúdio de tatuagem (A Soul Tattoo Art e Café, que funciona na Oscar Freire), um micro ônibus musical, estandes com guitarras e camisetas oficias do evento, um espaço dedicado a novas bandas, entre outros. Ou seja: mais parecia com a proposta do Rock in Rio de criar uma ‘cidade do rock’ de uma forma simples e muito mais objetiva. E deu super certo! Palmas para a 89 FM, a Rádio Rock. Como é gostoso poder vê-los patrocinando shows outra vez!

slip 5
Corey Taylor em apresentação com o Slipknot | Crédito: Camila Honorato

A primeira apresentação do dia foi dos brasileiros do Project 46, seguida pelos franceses do Gojira, que aqueceram ainda mais o público no meio daquele calor absurdo. O Hatebreed, por sua vez, começou a cansar a plateia com rodas maiores de bate-cabeças, pulos e coros intensos. O maior destaque da apresentação, porém, foi a presença ilustre do guitarrista Andreas Kisser durante o cover de Refuse/Resist, do Sepultura. A essa hora, fãs histéricos já começavam a se acotovelar. Outro ponto positivo foi o carisma e a voz impecável do vocalista Jamey Jasta, que conversou bastante com a plateia durante o show.

Logo em seguida, os americanos do Killswitch Engage ocuparam seu lugar no palco, marcado pelo retorno de Jesse Leach aos vocais. Achei a plateia um pouco mais quieta em comparação ao show anterior. O que é uma pena, já que eu me empolguei com eles o suficiente pra me arrepender de nunca ter ouvido suas músicas antes. Quer dizer, eles são realmente bons! Carismáticos, bem entrosados e claramente muito felizes de estarem ali.

hatebreed
Sol escaldante no show do Hatebreed | Crédito: Camila Honorato

Acredito que a decisão mais acertada teria sido inverter a ordem do line up e colocá-los antes do Hatebreed. Mas ainda assim vi muita gente beirando a insanidade. O guitarrista Adam Dutkiewicz é um show a parte: o cara simplesmente não para um minuto! Corre de um lado pro outro no palco, é cômico pra caramba e ainda tem tempo de falar algumas palavras taradas para as meninas no microfone. É, moço. Apenas: NÃO! Antes de encerrar a apresentação, Jesse elogiou bastante as manifestações que tomaram conta do país. Um rapaz inteirado, olha só.

E então a noite começa a cair na arena. Os espaços vazios da plateia começam a ser ocupados com fúria. Fãs e mais fãs brigam por um lugar privilegiado e o espaço finalmente lota, a ponto de muitos não conseguirem se mexer. As luzes se apagam e a expectativa cresce quando, finalmente, Fred Durst aparece no palco com seu clássico boné vermelho e uma corrente gigantesca (?) no pescoço. Sem meias palavras, ele ordena: “Get the fuck up!”, enquanto a guitarra do excêntrico Wes Borland (todo pintado de branco e com um capacete psicodélico) agita Thieves para um público sedento por mais. E é com Rollin’, então, que o Limp Bizkit começa a fazer o show mais insano que eu já vi na minha vida! Nunca tive tanta dificuldade de parar em um lugar só e usar tanto minha força pra afastar a quantidade enorme de brucutus, que não paravam de empurrar, pular e organizar enormes mosh pits.

engage
A apresentação eufórica do Killswitch Engage | Crédito: Camila Honorato

Enquanto isso, várias pessoas começavam a fazer esforço pra sair, muitas delas machucadas e/ou passando mal. A essa altura, me perdi de três pessoas que estavam comigo e grudei na minha irmã e no namorado dela pra que a gente não se separasse. Em Hot Dog, My Generation e Livin’ It Up, fizemos um esforço sobrenatural pra conseguir pular, cantar, afastar pessoas que nos acotovelavam no meio da pista e chegar na lateral ao lado da grade da passarela. Em My Way, as coisas pioraram.

Enquanto eu pulava, sem medo de ser feliz, senti uma pancada forte que por pouco não travou meu maxilar. E quando eu achava que as coisas não ficariam piores, meu querido Fred se arrisca com alguns covers: depois das vaias na introdução de Sweet Child O’ Mine, do Guns (quem teve a ideia besta de tentar tocar essa porra?), mais cotovelos surgiram com a primeira parte de Smells Like Teen Spirit, do Nirvana. Pô, gente, me admira que vocês ainda aguentem ouvir essa música. Sério mesmo!

Mas bem: não deu pra cantar inteira porque o titio Fred não lembrava a letra. Então, claro, porque não foder tudo ainda mais colocando um Rage Against de Machine? Não tem nem como reclamar! Era tanta gente se maltratando em Killing In The Name que eu jurava que ia ter que apelar pros bombeiros. Mas, felizmente, consegui sobreviver e salvar quem estava comigo. A essa altura, as pessoas já estavam tão cansadas perto de mim que eu consegui arrancar boas gargalhadas pedindo Behind Blue Eyes, aquele cover de The Who que eu acho mil vezes melhor que a original (ME JULGUEM, NÃO ESTOU NEM AÍ!).

O set list seguiu só com porradas como Eat You Alive, Faith, Take a Look Around (que eu amo, mas não consegui nem me mexer com a quantidade absurda de gente se espremendo ao meu redor) e a ótima Break Stuff, que encerrou a apresentação apoteótica. Que fôlego, gente! E não é que deu vontade de ver mais?

fred 2
O show do Limp Biskit foi tão absurdo que por pouco não apagou as outras bandas do line up | Crédito: Camila Honorato

Os nervos se acalmaram um pouco e o desespero maior era conseguir um copo de água. Os vendedores não deram conta da demanda e muita gente reclamou, mas a pausa foi fundamental pra conseguir aguentar o tranco do Korn, que abriu com Blind, seguida de Twist. Mais uma vez a coisa apertou na pista: todo mundo voltou a pular e abrir rodas grotescas – e eu comecei a ter esforço pra afastar cotovelos imprudentes.

Mesmo assim, houve quem reclamasse da quietude da plateia, inclusive o próprio vocalista. Mas na real, não vi esse descontentamento todo não! Muito pelo contrário. É que, se comparado com a crueldade vista no Limp Bizkit, talvez os corpos tenha esfriado um pouco. Mas isso é tudo fruto do cansaço e nada mais. Não tinha como ficar indiferente à voz perfeita do vocalista Jonathan Davis (que, pra minha tristeza, deixou aquela ‘pedestal-mulher’ em casa), ainda que o início da apresentação tenha saído com o som mais abafado.

Os momentos mais empolgantes do show foram, obviamente, com as conhecidas Falling Away From Me, Coming Undone e Freak On A Leash, que encerrou a ótima apresentação. No entanto, a ‘carta na manga’ do grupo veio com um Sepultura nervoso no palco como convidados especiais, cutucando a plateia com vara curta ao tocar Roots Bloody Roots. E é claro que, outra vez, sobrou para os pigmeus que, como eu, enfrentavam os leões sem medo das consequências. Porque né: sou forte, determinada, persistente e enfrento mesmo!

korn 4
O Korn superou problemas técnicos e apresentou um show completo e cativante | Crédito: Camila Honorato

Apesar das controvérsias, acredito que o show do Korn tenha sido o segundo show mais competente entre todas as bandas. Acho os caras muito completos, cheios de qualidade. Queria não estar tão cansada e curtir mais.

E, por último, veio o motivo para tantas réplicas de macacões e máscaras terem se movimentado para aquele lugar. Era muita gente com sangue no olho e eu realmente fiquei intimidada, mas persisti. No final, nem tive tantos problemas quanto no começo da noite, apesar dos muitos apertos e de machos inconvenientes pra aporrinhar a vida das moças.

UM DESABAFO: sério mesmo que vocês ainda acham que agarrar e tocar a pessoa desse modo agressivo e ridículo vai despertar qualquer reação além de raiva e desinteresse? Quantos anos vocês têm? Treze?

Mas enfim, voltemos a falar sobre o Slipknot. Não tem outra coisa pra dizer sobre o cenário do palco e todos os efeitos: os caras são perfeitos! Combinam a qualidade das apresentações com performances realmente memoráveis e muita teatralidade, que está em falta no cenário musical atualmente. Eu me pergunto, de verdade, por quê tantas banda ainda têm esse medo de literalmente se jogar?! O palco lhes pertence, meus caros. Fazei dele sua casa, mesmo que ela se torne um antro de bizarrices. Façam história!

slip 2
Pra quem tem fobia de palhaços: nem chegue perto do show desses caras | Crédito: Camila Honorato

Sem precisar desse tipo de conselho, Corey Taylor comanda o público e conduz todos a seu modo, mostrando-se confortável mesmo debaixo daquele figurino todo como quem diz: “Eu mando nessa porra!”. O setlist, é claro, foi recheado de pancadarias, sem direito a um segundo sequer pro indivíduo parar e respirar um pouco. Abrindo com Disasterpiece, o grupo foi enfurecendo o público até chegar em Wait and Bleed, com um coro nervoso e pancadarias se intensificando.

O repertório de 1h40min de duração passou por todos os momentos da carreira da banda, desde Iowa até o mais recente All The Hope Is Gone. Os momentos mais intensos da primeira parte foram em Before I Forget, Dead Memories, Left Behind, The Heretic Anthem (‘If you’re 555, then I’m 666’. Quem nunca?) e Psychosocial.

Em seguida, foi a vez de Duality abrir uma verdadeira cratera no meio da plateia, que voltou a se bater com fúria no mosh pit, em uma homenagem singela a Paul Gray, o baixista da banda morto em 2010. Em Spit It Out, como de praxe, o público todo sentou no chão até receber as ordens de Corey para pular. É um cenário lindo de se ver pra quem está de fora, mas eu garanto: lá dentro é divertido demais, mas dói pra cacete!

slip
O Slipknot levou o público ao delírio e encerrou a noite com chave de ouro | Crédito: Camila Honorato

O encore se deu com (sic), People = Shit e Surfacing, onde o baterista Joey Jordison gira quase de ponta cabeça. Em todos os momentos do show, os integrantes interagem muito entre si. Shaw Crahan e Sid Wilson talvez sejam os mais insanos. É sério, gente: o que o Sid toma? É surreal! Com essa edição bem sucedida do Monsters a gente só pode agradecer e torcer pra que tudo se repita nos próximos anos – inclusive as dores ‘pós-academia’ que vão me acompanhar durante uma semana.

Sobre o segundo dia

Não pude comparecer ao segundo dia do festival, mas gostei bastante do que consegui acompanhar pela televisão. Me atenho aos principais headliners: o Whitesnake ainda tem estrada pela frente, apesar de David Coverdale não cantar como antes (e alguém me fala que plástica era aquela, minha gente?) e o Steven Tyler continua sendo o maior exemplo de anti-machismo no rock com aquele figurino espalhafatoso, os cabelos esvoaçantes e as unhas pintadas. Todo mundo tem muito que aprender com esse cara! Voz, presença de palco, musicalidade, teatralidade… Enfim, TUDO! E o que foi Dream On, minha gente? Que coisa linda ele tocando piano com o Joe Perry solando em cima dele. E aqueles agudos? De chorar!

Definitivamente, não dá pra se cansar do Aerosmith. Mesmo que eles decidam visitar o país duas vezes no ano.

GALERIA DE FOTOS | CRÉDITO: Camila Honorato:

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s