Crítica Musical: Rock in Rio 2013 – 4°dia

Sexta-feira de manhã, sono e falta de vontade de trabalhar. E isso tudo por ter acompanhado só pela televisão – imagina só como estão os músculos de quem conseguiu pisar na Cidade do Rock! Depois de um final de semana quase completamente dedicado ao pop, com boas apresentações e outras que deixaram a desejar no quesito ousadia, o Rock in Rio teve, enfim, o seu dia mais glorioso.

A começar pelas atrações do Palco Sunset. As misturas excêntricas deram lugar a opções muito mais acertadas, com shows muito bem executados. O encontro do Almah com o Hibria mostrou a força do metal brasileiro, com um Edu Falaschi claramente mais confortável do que nos tempos de frontman do Angra. Em seguida, a lendária cabeleira loira de Sebastian Bach deu as caras, agitando um público fiel que claramente não se importou muito com a voz nitidamente cansada do músico e se entregou à essência do metal farofa.

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Metallica, sempre mandando na porra toda | Crédito: G1/Divulgação

O primeiro show de horrores da noite ficou por conta de Rob Zombie, executando uma boa apresentação no melhor estilo ‘rock teatral’ (bebendo da fonte de Alice Cooper), cujo auge foi em músicas como More human than human e Thunder kiss ’65’.

No entanto, era no Palco Mundo que estava a sequência mais desesperadora do festival. Pra começar, o Sepultura fez um show glorioso ao lado do Tambours du Bronx. Como eu disse no ano retrasado, a sensação de misturar o som dos caras com as percussões agressivas do grupo francês traz a sensação de que tem uma coisa explodindo no palco o tempo todo. O encaixe era nítido em músicas como Spectrum, Territory e Roots Bloody Roots.

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Rob Zombie, performático e horroroso como ele só | Crédito: G1/Divulgação

Acho importante ressaltar também o bom entrosamento do jovem baterista Eloy Casagrande, que há dois anos foi responsável por amenizar as vaias do Glória (atitude que eu sempre vou repreender) com um solo incrível. O show ainda contou com um cover acertadíssimo de Firestarter, do Prodigy – pra mim, o melhor grupo de música eletrônica do planeta.

A segunda banda a subir no palco principal do evento foi o Ghost B.C, e foi aí que ficou mais nítido o comportamento desrespeitoso da ala mais estúpida do metal, que começou a dar as caras no show do Rob Zombie ao xingá-lo de ‘poser’ (estamos em 2013 e as pessoas ainda repetem isso? Honestamente…). Durante o show do grupo sueco, algumas figuras gritaram em coro pelo Metallica, o que reflete a imaturidade de boa parte da plateia brasileira, que merecia ter ficado em casa.

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O Sepultura, como sempre, elouqueceu os fãs | Crédito: G1/Divulgação

Embora não tenha tanta propriedade pra falar sobre a banda, já que eu a conheci há pouco tempo, o que vi foram integrantes preocupados em fazer uma boa apresentação.  Houve entrosamento, um instrumental incrível e sinistro ecoando pela arena e uma voz muito boa do vocalista Papa Emeritus II. Escrevo esse nome com um sorriso na cara, porque acho genial o fato de todos os integrantes da banda abrirem mão de sua identidade. Mais do que uma jogada comercial, criticada por quem mal entende do assunto, a banda aposta no mistério e na obscuridade do lado anticristão.

Mas afinal de contas, eu pergunto: que banda hoje em dia não aposta pelo menos um pouco no lado ‘comercial’ pra sobreviver na indústria? É preciso atrair o público. Escolher viver no cenário underground pode trazer uma sensação incrível de satisfação justamente por não depender de terceiros pra construir uma carreira sólida. Mas quem deseja sobreviver exclusivamente de música não consegue fazê-lo se não resolver apostar um pouco na imagem. E é aqui que entram as escolhas dos músicos.

Honestamente, acho que o Ghost faz isso muito bem dentro da proposta satânica nas letras, no visual dos integrantes e no cenário de missa macabra no palco. Essa proposta, aliás, tem mais como objetivo criticar a postura da Igreja Católica do que pregar uma crença. É aquela famosa história de engajar as pessoas sobre o que você acredita através da sua arte. E eu, como amante de espetáculos, valorizo muito isso. E convenhamos: não dá pra ficar indiferente ouvindo músicas como Per Aspera ad Inferi, Con Clavi Con Dio e Genesis.

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O Ghost e sua performance, que mistura a personificação do anticristo com críticas à igreja católica | Crédito: G1/Divulgação

Em seguida, foi a vez do grunge, com claras influências de hard rock, dar as caras no Rio de Janeiro. Eu tenho que confessar que minha relação com o Alice in Chains é transcendental, vem de berço. Nasci nos anos 90 e tenho um carinho enorme pelos seus filhos.

Na contramão dos fãs mais radicais (e ignorantes) da banda, tenho que dizer que virei fã do William Duvall e acho que seu trabalho na banda foi muito mais do que substituir Layne Staley, que morreu de overdose de heroína em 2002: ele simplesmente respeitou sua própria identidade musical, encontrou seu lugar na banda sem imitar o antigo vocalista, mas trazendo um toque exclusivamente seu que casou completamente com o som dos caras.

E meu Deus, gente, que voz era aquela? Vamos entender de uma vez por todas que uma banda pode seguir em frente? Por mais que eu ame o Layne e tenha chorado em vários momentos do show lembrando dele e de sua voz forte, tenho que reconhecer todo o esforço do Duvall pra executar uma boa apresentação e cativar o público. Aliás, no quesito simpatia, como disse muito bem Jimmy London durante os comentários feitos pela equipe do Multishow, o Duvall manda muito bem, já que a essência do Staley consistia em transformar seu inferno particular e melancólico em algo belo. São duas naturezas diferentes que casam num palco.

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Jerry Cantrell e o som surreal de bom do Alice in Chains | Crédito: G1/Divulgação

Como de praxe, Jerry Cantrell mostra porque é o nome por trás do Alice in Chains não só na guitarra, mas naquela voz que preenche cada espaço da música, nos efeitos e na presença firme. Os caras abriram com Them Bones e levantaram a plateia. Mesmo com uma apresentação curta, deu pra intercalar clássicos com trabalhos recentes, tais como Hollow, Check My Brain e Stone.

Os momentos mais intensos foram em Man In The Box (senti até um arrepio no refrão e não contive as lágrimas) e Would? (uma das músicas mais espetaculares da era grunge). Nutshell, Down In A Hole e Rooster trouxeram aquela atmosfera mais obscura – e deu gosto de quero mais. Faltou clássicos como No Excuses e Angry Chair e muitas músicas boas dos álbuns recentes, como o último e genial The Devil Put Dinosaurs Here, que confronta o criacionismo. Mas tudo bem, foi incrível do mesmo jeito.

E por último, é claro, o espetáculo. Acho que não conheço ninguém que consiga se cansar de ver o Metallica. Com um atraso de 30 minutos, os integrantes finalmente entram no palco e enchem o espaço com Hit The Lights, seguida pela pancada de Master of Puppets. Pra variar, James Hetfield enlouqueceu a plateia com sua ótima presença de palco e aquela voz absurda. Kirk Hammet divertiu ao tocar a The Imperial March de Star Wars e o Trujillo arrancou gritos com seus solos absurdos – ainda vou entender o universo particular dele e como o cara consegue ficar machão usando quatro trancinhas.

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Metallica: reis que nunca perdem a majestade | Crédito: G1/Divulgação

Enquanto isso, como de praxe, muitos fãs reclamaram da falta de agressividade nas baquetas do Lars. Sério, deixem o pobre demônio em paz.  O setlist passou por grandes clássicos da carreira dos caras, como …And Justice For All, One, From Whom The Bell Tolls e Enter Sandmen . E eu ainda sonho com o dia em que verei Sad But True ao vivo. Nunca consegui ver um show dos caras que não fosse desse jeito, sonhando pela televisão.  A apresentação foi encerrada com Seek And Destroy, dando um motivo pra todo mundo dormir feliz – e consequentemente se ferrar com a rotina do dia seguinte.

E enfim, o Rock in Rio teve seu dia mais nervoso. Pelo menos por enquanto…

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