Crítica de Cinema: “Faroeste Caboclo” vai muito além da música de Renato Russo

Um clássico é sempre um clássico – e dificilmente desagrada. Uma história complicada que envolve desigualdade social, violência, tráfico de drogas, juventude e amor, com uma épica cena final de um duelo que bate de cara com A Hora e Vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa. Se fosse extraído de um roteiro elaborado nos últimos anos para o cinema nacional, a fórmula teria grandes riscos de cair no lugar comum – apesar de seu indiscutível sucesso. Mas estamos falando da adaptação de uma das músicas mais conhecidas – e amadas- pelos brasileiros: Faroeste Caboclo.

Salve o dia em que Renato Russo resolveu escrever sobre João de Santo Cristo! A letra complexa e cantada em dez minutos caiu no gosto popular e virou patrimônio. Mesmo quem não consiga cantar a música inteira há de se lembrar de muitas frases de impacto – aquelas que grudam na sua cabeça o dia inteiro e não tem Molejo que consiga tirar. Anos depois, os maiores fãs da obra puderam se contentar com a chegada da história nas telas de cinema. E o resultado é um pouco assustador: em um mês, mais de um milhão de pessoas já conferiram o filme. Isso contando apenas os bilhetes comprados nos cinemas e excluindo os downloads “ilegais” na internet.

Sem querer cair na repetição de explicar a história – que é a mesmíssima da música e elimina qualquer resumo – vou ressaltar o papel do diretor René Sampaio e do trabalho dos atores. E isso, aviso, inclui alguns SPOILERS.

Faroeste Caboclo
Crédito: Divulgação

Primeiramente porque o trabalho realizado pelo René foi muito bom! Não se trata apenas de prestar atenção no conteúdo repetido, mas na forma como ele é conduzido. As tomadas não são lá muito óbvias: o diretor optou por desconstruir a linearidade da música. Mostra-se o assassinato cometido pelo jovem e revoltado João e sua ida ao reformatório para só depois explicar que a ação foi promovida por um desejo de vingança, já que o mesmo perdeu o pai com um tiro daquele soldado covarde. É a partir daí que se conhece um pouco da infância miserável do nordestino, sua ida a Brasília e, só então, o envolvimento com os negócios de seu primo Pablo e o caso amoroso com a jovem de classe média alta Maria Lúcia. Essa desconstrução, que não altera em nada a essência da obra, foi reprovada por alguns espectadores que esperavam que o filme obedecesse cada letra da música. Ouvi algumas pessoas dizerem: “Eu achava que iam mostrar a infância inteirinha dele primeiro” ou “Cadê a parte que ele brincava de médico?”. Eu acho que é isso que faz o filme um resultado final cativante: ele respeita o principal, mas também cria sua identidade própria e foge da obviedade.

O segundo ponto que eu destaco é a explicação de certos por quês que não estão expostos na música. O diretor sanou algumas dúvidas que pairam no ar de qualquer ouvinte de Faroeste Caboclo, como por exemplo: por que o soldado matou o pai de João de Santo Cristo? Quem é Maria Lúcia na fila da boate e por quê diabos ela resolveu se envolver com o mau caráter do Jeremias? Como acontece o envolvimento amoroso dos personagens? E por aí vai… Algumas pessoas também não aprovaram a inserção dessas “cenas extras”, como eu as chamo. Mas eu achei extremamente importante pra conduzir o filme. Meu namorado me falou uma vez: “Acho que esse filme foi um dos mais fáceis de fazer, até porque o roteiro já está pronto”. Mas na prática não é bem assim! É complicado você adaptar alguma obra para os cinemas e deixar certas dúvidas que assombram o trabalho original. Afinal de contas, o espectador não pode se deparar com certos vazios que podem e devem estar presentes em músicas ou livros, já que esses dão mais espaço para uma reflexão poética e/ou filosófica.

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Crédito: Divulgação

Por fim, quero dar os parabéns aos atores. A Maria Lúcia pra mim era uma mulher sem rosto, já que a falta de descrições importantes da personagem na música não deu muito espaço pra minha criatividade. E eis que os produtores me tiveram a ideia genial de colocar a Isis Valverde (pra mim, a melhor atriz do Brasil atualmente) pra viver a moça, que a gente descobre ser muito mais que uma “menina linda”: ela frequentava o cenário musical de Brasília nos anos 80, gostava muito de marijuana, era filha de político e sofreu muito mais do que podemos imaginar pra salvar a pele de Santo Cristo, sem sucesso. Aliás, o mesmo é vivido pelo excelente Fabrício Boliveira, que encarnou perfeitamente a essência do personagem: até hoje não vi ninguém dizer que ele não era “perfeito para o papel. O Santo Cristo reencarnado”. Felipe Abib deu a cara certa de mau caráter para o Jeremias, o traficante sem vergonha que conta com o apoio de policiais corruptos, como Marco Aurélio – vivido pelo ótimo Antônio Calloni.

O filme não é tão comum como se espera. A história não é simplesmente tratar da desigualdade entre o rico e o pobre e de uma história de amor e rivalidade que brota nos dois mundos. Ele, assim como a música que o inspirou, refletem a importância que é pensar a respeito da criminalização da pobreza. Se muitos garotos pobres são tidos como vilões da sociedade, aqui o protagonista conta com o apoio de um público que conhece de perto sua realidade e suas dificuldades.

VAI LÁ!
Faroeste Caboclo
Direção: René Sampaio
Elenco: Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Felipe Abib, César Troncoso, Antonio Calloni, Marcos Paulo, Cinara Leal e Rodrigo Pandolfo.
Classificação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom)

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One Comment Add yours

  1. Ednalva says:

    Realmente esse filme explicou alguns por quês e os atores estão ótimos. ADOREI!!!

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