Crônica: Chorão e a dor de perder um ídolo precocemente

Socorro!

Corra pra ver o que acontece e volte aqui pra me falar. O que parou a cidade inteira novamente.

Socorro!

Os caras do Charlie Brown invadiram a cidade. Tá na boca do povo, na linguagem das ruas, cravado até mesmo nas cores do grafite que marcam essa identidade urbana. E também aquele litoral.

Então me passa o que vem do samba, do skate.

A pista tá vazia. Tomamos um tombo, nos machucamos e a ferida vai demorar pra cicatrizar.

E, como toda dor que demora pra cicatrizar, fica aquela lembrança forte que aos poucos se anestesia. Mas ainda assim está lá.

Socorro!

Arrancaram parte da minha infância, da minha adolescência.

Aquela pinta de criança que vai em show, percebe a insanidade que é ver esse artista no palco.

E pede até autorização pra mãe: “Posso falar palavrão?”.

E quem não tem uma boa lembrança na pista? Aquele som com o qual você se identifica. Percebe a linguagem atemporal, que fala para várias gerações.

Dos problemas da vida, das agruras da juventude, do amor em sua forma mais pura.

Pois ele tentou descobrir como tudo deve ser. Sabia que é foda ser tachado de doido, vagabundo.

Sentado na beira da praia, versou sobre aquela quinta-feira. E de como aquela coisa parecia inofensiva, mas te dominou.

E foi sentado na beira da praia que ele a viu. Aquela que tirou a roupa e entrou no mar. E sem roupa ela era demais.

Peço socorro porque agora fica aquela falta. E quem vai falar com a nossa alma através dessas palavras? Com quem iremos nos identificar tanto?

Chorão
Crédito: Divulgação

Quem agora poderá dizer que não é sério? Que entenderá que essa juventude sofre, pois o jovem no Brasil nunca é levado a sério?

Era Rubão, o dono do mundo.

E hoje disse adeus à cidade e aos fãs. E, infelizmente, não só por uma noite.

É, meu caro, você se foi. Tão de repente que só faz a dor aumentar. Porque fã que é fã é assim: sente-se próximo, amigo de infância daquele ídolo, de tanto que se identifica com ele.

E pois então, meu amigo, você foi cedo. Buscou o seu lugar ao sol, livre. E finalmente vai descobrir por nós que azul é a cor da parede da casa de Deus.

Não. Não há mais ninguém como você e eu. Como aquela tarde escutando aquele som acústico que fez tanto sucesso entre nós, e que marca os encontros de familiares e amigos. Rapaz, como pode traduzir tão bem o que sentimos, com todos esses vícios e virtudes?

E eu te agradeço muito. Agradeço por me ensinar a lutar pelo que é meu. Agradeço por me falar que não tem problema em não usar sapato – mas que se foda, não é mesmo?

E mais do que tudo, agradeço por seu ensinamento que foi aplicado nessa manhã espantosa, que despertou tantas pessoas no desespero, com esse cruel senhor do tempo: que temos que viver nossos sonhos, pois temos tão pouco tempo…

Suas frases estão marcadas, grande poeta. Seu trabalho e seu legado são eternos.

Vá em paz, meu velho. Obrigada por me fazer crescer com suas músicas. E obrigada por tantos gritos alegres ouvindo aquele papo reto no rádio do carro.

Um dia a gente se encontra. E que você nos deixe te encontrar.

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