Conto: O piano – (história sobre amor e música)

Ela era tímida. Andava lentamente perto das pessoas, quase sempre sustentando um livro nos braços. Suas bochechas ficavam coradas com facilidade diante de qualquer comentário a seu respeito, ainda mais quando lhe eram elogiosos. Percorria os corredores da casa com receio, intimidada pelas paredes gigantescas e ocultando-se pelas cortinas.

Durante a noite, escrevia no caderno para aliviar aqueles sentimentos tão acanhados. Gostava de ouvir o barulho que o vento e a chuva faziam na janela e apreciava a vista que tinha do bosque, ainda mais quando este era iluminado pela luz plena da lua. Gostava de imaginar que alguém passeava por entre as árvores durante a madrugada, sendo amparada pela proteção de uma boa companhia.

No entanto, nada a acalmava mais do que o som que ele emitia com seus dedos habilidosos. Não importava a hora do dia: sempre que ouvia a música daquele instrumento atravessando a porta, corria ao seu encontro. Com o cuidado de não ser vista, escutava as mais belas melodias criadas pelo piano. E se acalmava, transportada para outra realidade. Já não era mais uma jovem insegura, mas as notas pairando no ar. Tomada por um sentimento tão único, sentia-se transformada num pardal, cantarolando baixinho para acompanhar aquele som tão familiar.

Crédito: Autor Desconhecido

Não sabia quantas vezes se perdera naqueles momentos – e não se importava. Só pensava em ouvi-lo e cantarolar baixinho. Um dia, sozinha com seu maestro, cantou distraidamente sem perceber que sua voz estava mais nítida do que o normal.

– Você tem uma voz linda.

O elogio vindo daquela voz grave quase a impulsionou a correr. Mas então ela parou, consciente de que via aqueles olhos pela primeira vez. Eram tão jovens quanto os seus, de uma escuridão que contrastava com a pele clara de marfim. E parou um momento para observá-lo. Sorridente, ele acena para que ela se aproxime. Sua tensão é aliviada aos poucos conforme ela caminha em sua direção, derrubando vários muros que a impediam. Por fim, ela chega ao instrumento enorme de cauda, fitando as teclas convidativas.

– Quer aprender a tocar?

Ela faz que sim, mal podendo acreditar que finalmente está prestes a sentir a origem de toda a sua tranquilidade. Ele segura suas mãos miúdas e mostra os movimentos que transformam pequenas notas em acordes, melodias completas e agradáveis. De súbito, é tomada por um sentimento de incompletude, pois a graça de tudo era ouvi-lo tocar. Aquilo não pertencia a ela.

Crédito: Erkan Utu/StockSnap
Crédito: Erkan Utu/StockSnap

Sorrindo timidamente, confessa que prefere apenas ouvir o que ele reproduz para acompanhar cantarolando. Ele compreende pela timidez daqueles olhos, pois a mesma fascinação que ela teve com o piano é correspondida pelo encanto que sentiu ao ouvi-la distraída em sua cantoria.

Ele retoma suas atividades com um sorriso convidativo. Ela então percebe que é sua deixa para completar o vazio ecoando pela sala, libertando-se de sua timidez ao cantar. E novamente era o pardal pairando no ar, tendo o céu como seu palco. O piano como pano de fundo para seu sentimento de satisfação. Não seria nada sem ele e ele sentia que não podia continuar sem ela, pois pela primeira vez se sentia completo.

Pois na música há a mistura de elementos que a torna mais bela e poética. Ele e ela. A melodia e a voz.

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