Conto: A vingança do Querubim

A vingança não é feita para qualquer um. Afinal de contas, não são todos que anseiam e desfrutam de um prato frio de caviar, ostras e vinho do Porto. Muitos apenas a planejam mentalmente para aplacar a dor sofrida, para acalmar seus próprios pensamentos. Mas na verdade, tudo o que precisam é um pequeno aconchego. Algo ou alguém que os conforte e diga que, no final, tudo vai ficar bem.

Nunca soube quando os humanos começaram exatamente a se desmembrar dessa forma. O cheiro de sangue como uma constante do cotidiano, o aroma insistente da raiva, os espíritos de trevas pairando acima de suas cabeças. Os arcanjos não suportam as almas dúbias criadas a partir da costela de Deus. A raiva dos serafins quando alguém resolve corromper a alma de seus semelhantes não é algo que consegue ser superado facilmente. É por isso que os humanos ficam tão confusos com a história da punição ao livre-arbítrio. Pouco refletem sobre as ações de causa e consequência. Menos ainda sobre como tantos pares de olhos transparentes como a névoa resolvem de repente irromper pelas estradas e se apossar de seus corpos.

Dark-Forest-Awesome-Wallpaper
Crédito: Autor Desconhecido

O cenário é de uma destruição pós-apocalíptica. O mundo se derreteu em caos tal qual os reflexos das cenas urbanas em um dia de violência. Olho para os corpos deploráveis à minha frente, sentindo uma onda de náusea e desespero. Almas perturbadas que foram brutalmente arrancadas desse mundo por minhas próprias mãos. Tento me apegar ao único resquício de alívio cravado no fundo da minha cabeça: acabou.

Ainda assim, puxar o gatilho é um fardo duro pra carregar. E eu sei que, por pior que sejam as minhas encomendas, eu sempre vou ter esse sentimento de culpa.

Caminho para longe daquele cenário obscuro, sentindo a presença de Gabriel se aproximando. Suas funções são sempre as mesmas: limpar o cenário, livrar-se dos corpos, certificar-se de que não há testemunhas e, é claro, esperar pelo pior. Afinal de contas, eliminar alguém sempre é um chamativo. Um chamativo pra tentativa torpe de vingança dos humanos contra a Providência.

Ele me dá um sorriso no escuro. Suas sombras projetam imagens no chão que me fazem refletir: seu nome, seus olhos e as funções que cumpre fazem jus ao seu próprio nome. Um arcanjo enviado para buscar os mortos, com a diferença de que o mesmo não carrega as boas histórias bíblicas. Mas sim asas negras e repletas de melancolia.

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