Crítica Musical: shows do Pearl Jam em São Paulo ficam além das expectativas

Palavras não são o suficientes para expressar o que eu senti nesses dois dias em São Paulo. Sim, dois dias. Porque fã é assim: se sacrifica de todas as formas possíveis para ver seus ídolos de perto, ainda que isso traga algumas consequências depois (no meu caso foram as fortes dores musculares).

Tudo começou com o anúncio de que a turnê comemorativa dos 20 anos de estrada do grupo passaria pelo Brasil. A venda dos ingressos, promovida pela Tickets For Fun, foi conturbada como de praxe: em um dia, os ingressos para o show de São Paulo esgotaram fazendo com que a banda confirmasse um show extra . Como uma fã frustrada e sedenta por agarrar a última oportunidade que me convinha, não hesitei em estourar o limite do cartão de crédito, levando minha mãe e minha irmã comigo. Aliás, que orgulho: três gerações roqueiras na família. Faço questão de passar tudo que aprendi musicalmente com minha mãe para a minha irmã, feliz por ela aceitar e gostar de grande parte das minhas indicações. Esse foi seu primeiro grande show de rock e sua felicidade era bem evidente.

Crédito: Camila Honorato

Meses de espera se estendem à minha frente. Nesse meio tempo a banda lança o documentário “Pearl Jam Twenty”, dirigido por Cameron Crowe. Exibido em cinemas do mundo inteiro (com muitos ingressos esgotados), o filme serviu como um “petisco” do que estaria por vir, visto que conta a história de toda a trajetória da banda, desde a explosão da era grunge até os dias atuais.

Cada semana que se aproximava de suas apresentações ao vivo servia para aumentar a ansiedade que me consumia por dentro. Até que aquele dia 3 de novembro finalmente chega, marcado pelo frio característico de Seattle. Para ficar ainda mais parecida com a atmosfera dos anos 90, só mesmo se chovesse como na cidade de Washington (e como em 2005, durante a primeira apresentação da banda na cidade, que fez com que declarassem que estavam se sentindo em casa). Felizmente, a chuva não apareceu para aumentar ainda mais frio e o trânsito caótico da cidade. Diferentemente da apresentação que se sucederia, muitos ingressos ainda estavam à venda, o que explicava os espaços vazios das arquibancadas (de acordo com a organização, quase 50 mil ingressos foram vendidos). Enquanto isso, a pista se transformava num verdadeiro mar de gente, todos ansiosos pela apresentação do grupo.

Crédito: Camila Honorato

Antes de subir ao palco, o Pearl Jam cedeu espaço para a banda de abertura. Surgida em Los Angeles em meados de 1977, a banda X (sim, desse jeito mesmo) mostrou um punk rock de respeito, impressionando muitas pessoas pelo vigor apresentado pela vocalista Exene Cervenka no alto de seus 55 anos. Dividindo o microfone com John Doe, Exene mostrou que ainda tem muita potência na voz (e energia pra fazer umas dancinhas bem esquisitas). Apesar de respeitarem o som do grupo, o público não os poupou de piadinhas: Exene foi comparada com vigor à Susan Boyle (por razões óbvias) enquanto que o cabelinho de John Doe estava me lembrando o Snape do Harry Potter. Sem ofensas.

 

Crédito: Camila Honorato

Ao contrário de 2005, o show desse ano não foi absurdamente pontual: a organização se preocupou em comunicar os pagantes que as apresentações seriam adiantadas em 15 minutos (ao invés de começar às 21, o show teria início às 20:45). Não foi isso que aconteceu: a apresentação começou com quase meia hora de atraso. Mesmo assim, a histeria no estádio foi coletiva (e eu com aquela sensação indescritível de quem estava realizando um desejo enorme mais uma vez).

A abertura da apresentação se deu com “Release”, faixa que encerra o primeiro álbum, “Ten” (o melhor até hoje, sem dúvidas). “Corduroy” veio logo em seguida, colocando um gás na plateia que pulava incansavelmente. A sequência matadora de “Why Go”, “Animal” e “World Wide Suicide” trouxeram até mim a sensação de que eu teria alguns probleminhas pra acordar no dia seguinte, mas nada que superasse minha total insanidade com “Even Flow”, um dos maiores hits da carreira da banda. No meio dessa sequência, o público agitou um coro de “OLÊ, OLÊ, OLÊ, OLÊ”, fazendo com que Eddie Vedder improvisasse o som na guitarra enquanto todos respondiam gritando o nome da banda: “Pearl Jam, Pearl Jam!”.

Crédito: Camila Honorato

A linda “Daughter” acalmou os nervos da plateia depois de tantas “pancadas”, mas nem tanto já que o estádio cantava em coro (emendando os clássicos trechos de “It’s Ok”). A nova música de trabalho, “Olé”, foi muito bem recebida e voltou a agitar todo mundo. Por fim, o primeiro bis foi encerrado com “The Fixer”, “Do the Evolution” (IT’S EVOLUTION, BABY!) e “Porch”.

Crédito: Camila Honorato

A pausa foi um pouco mais longa do que o habitual, mas essa espera foi compensada por uma sequência de músicas mais calmas: “Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town” mostrou como a voz de Eddie Vedder continua impecável mesmo depois de 20 anos de carreira – foi a primeira música que verdadeiramente emocionou o público, colocando muita gente pra chorar. Em seguida, veio a magnífica “Just Breathe”. Nesse momento, fui tomada por uma emoção tão grande que ficou impossível controlar as lágrimas. Foi a sensação mais intensa em relação à música que eu já senti na vida, a ponto de não conseguir explicar em palavras o que se passou dentro de mim (minha irmã parecia compartilhar dessa mesma emoção).

Depois disso, Vedder dedicou “Come Back” ao falecido amigo Joey Ramone, explicando que sua primeira vinda ao Brasil foi ao lado do vocalista dos Ramones. Como não podia deixar de ser, a homenagem ao grupo veio com um cover de “I Believe In Miracles”, presente no repertório dos shows do Pearl Jam há anos. Fascinado pelo público, Eddie agradeceu a todos, dizendo que em qualquer lugar que toque (Estados Unidos, Europa) a bandeira que mais predomina é a brasileira.

Crédito: Camila Honorato

E de repente, a guitarra de Mike McCready ecoa pelo estádio num conhecido solo que provocou gritos ensurdecedores: “Alive” foi cantada a plenos pulmões, e ainda me trouxe aquela sensação de nostalgia ao presenciar de perto uma das músicas que marcaram minha infância. E essa mesma sensação voltou com a performance de “Black”, que também me emocionou muito (aguardem trechos dessa obra-prima tatuados na minha pele!). “Better Man” viria em seguida. Por fim, a apresentação se encerrou com “Rockin’ in the Free World”, de Neil Young – também presente no repertório dos shows há anos.

Crédito: Camila Honorato

Em todo momento, a banda se mostrava alegre e eufórica em tocar em solo paulistano. Eddie Vedder deixava sua timidez de lado dando um show de interação com o público, lendo frases em português com um sotaque carregado (“Boa noite! E aí, galera? Estamos felizes por estar em São Paulo. Obrigado por nos chamar de volta. Vocês estão bem aí?”). Além disso, a performance divertida do vocalista seguia com as habituais goladas de vinho.

Crédito: Camila Honorato

Dormi com a sensação de leveza por ter realizado o sonho de vê-los outra vez, mal sabendo que teria que buscar mais energia para o que viria no dia seguinte. Sim, meus caros: nunca é suficiente ver sua banda favorita uma única vez. Num ataque de impulsividade, comecei a buscar pessoas que estivessem vendendo ingressos de última hora para a segunda e última apresentação da banda em São Paulo, com ingressos esgotados. E não é que consegui?!

Através de contatos no escritório, parti com o dinheiro contado no bolso para o que seria uma das minhas aventuras mais malucas do ano: o dono do ingresso morava na região da Vila Olímpia. Um dos pontos de encontro em comum seria a Casa do Ator, onde eu até então estudava. Pois bem: saí um pouco mais cedo do escritório e me deparei com um trânsito absurdo na Faria Lima quando o relógio já marcava mais de 18:00.

Sem pensar duas vezes, fui correndo encontrar o cara – numa velocidade que podia até ultrapassar os atletas da São Silvestre. Depois disso, peguei mais duas conduções para o estádio (lembrem-se: transporte público é uma desgraça e o trânsito é caótico). Cheguei no estádio às 20:30, perdendo a oportunidade de ver o show com alguns amigos (e o show da X outra vez). Enfim, ver tudo sozinha não parecia uma má ideia.

Crédito: Camila Honorato

O estádio estava entupido de gente. Com mais meia hora de atraso, os 68 mil pagantes puderam conferir mais uma apresentação histórica e impecável. Mesmo a maluquice toda de estar lá de última hora e correr como uma imbecil não foi capaz de tirar minha energia: “Go” abriu o repertório, me fez pular e gritar que nem uma maluca, e eu acabei sendo empurrada para um lugar ainda mais perto do palco que na noite anterior. “Do the Evolution” veio logo em seguida – aliás, essa foi uma das poucas músicas que se repetiram nos dois setlists.

Uma das características mais marcantes do Pearl Jam é que, além de escolherem as músicas uma hora antes do show, eles repetem muito pouco as músicas nas apresentações. Dessa vez, tive a oportunidade de conferir de perto “Given To Fly” e a linda “Amongst The Waves” – cantando de braços abertos como se eu fosse mais do que humana. Mas uma das melhores surpresas reservadas para aquela noite foi a performance de “Setting Forth”, uma das músicas do projeto solo de Eddie Vedder, presente na melhor trilha sonora do planeta no filme da minha vida: “Na Natureza Selvagem”. Novamente, fico sem palavras para descrever minha reação.

Crédito: Camila Honorato

Em mais uma divertidíssima interação com a plateia, Vedder se desculpou (em português) por falar em inglês com todo mundo: “Meu português é uma “merda”, disse enquanto era aplaudido. Em um dado momento, o vocalista agradeceu a banda X, relembrando de que viu a banda tocar pela primeira vez quando ainda era menino e falsificava a identidade. Contou que inclusive segurou uma garrafa de cerveja dada pela vocalista, jurando que não bebeu (provocando risos num público fascinado com sua simpatia).

Crédito: Camila Honorato

“Even Flow” esteve presente no repertório mais uma vez – e o Morumbi quase veio abaixo. A banda também tocou “Once”, faixa que abre o disco “Ten” e levou todo mundo ao delírio. A performance de “Black” novamente me emocionou, dessa vez por lembrar muito a minha família que não pôde me acompanhar naquele dia. No segundo bis, “Why Go” me obrigou a entrar em um bate-cabeça. Além disso, houve uma surpresa: “Jeremy”, que ficou fora do setlist na noite anterior apesar dos pedidos insistentes do público, apareceu para esgotar ainda mais as energias de quem estava lá. E eu, de novo, dentro da muvuca com gente que eu nem conhecia (o que me rendeu umas cantadas depois).

Crédito: Camila Honorato

O terceiro bis veio com “Last Kiss”, acompanhada de uma pequena falha, visto que Eddie Vedder não se lembrava direito da letra (obviamente que ninguém se importou com isso). “Alive” causou aquela histeria absurda e foi impecavelmente cantada. Por fim, mais uma surpresa foi revelada ao público: um cover magnífico de “Baba O’Riley”, do The Who. Encerrando a apresentação com “Yellow Ledbetter”, o Pearl Jam deixou o palco ovacionado por um público mais do que satisfeito.

Crédito: Camila Honorato

O que mais posso dizer? Pra mim, é a melhor banda do mundo e foram os shows da minha vida! Eddie Vedder, Jeff Ament, Stone Gossard, Mike McCready, Matt Cameron e até mesmo Boom Gaspar (tecladista apontado como integrante adicional) mostram que se sentem confortáveis no palco e que sabem muito bem interagir entre si. Todos eles sentem a música como elemento principal nos shows, um tapa na cara de quem recorre a figurinos, cenários absurdos, e outros recursos. A realidade é que o Pearl Jam ignora tudo isso: o palco conta com um sistema de iluminação bem simples, e só. O resto não é nada menos que o próprio som. Sim, eles ensinam como é que se faz.

Crédito: Camila Honorato

Tudo que posso esperar dessas apresentações é que elas ensinem muitas bandas novatas por aí como é que se faz rock de verdade sem precisar abdicar de sua essência. E, claro, esperar por eles outra vez, já que presenciar coisas boas nunca é demais.

GRUNGE IS NOT DEAD!

Crédito: Camila Honorato
Crédito: Camila Honorato
Crédito: Camila Honorato

SETLIST 03/11/2011

1 – Release
2 – Corduroy
3 – Why Go
4 – Animal
5 – World Wide Suicide
6 – Got Some
7 – Even Flow
8 – Unthought Known
9 – Whipping
10 – Daughter / W.M.A. (trecho)
11 – Olé
12 – Down
13 – Save You
14 – The Fixer
15 – Do The Evolution
16 – Porch

Bis 1
17 – Elderly Woman Behind The Counter In a Small Town
18 – Just Breathe
19 – Come Back
20 – I Believe In Miracles (Cover do Ramones)
21 – Alive

Bis 2
22 – Comatose
23 – Black
24 – Better Man
25 – Rearviewmirror
26 – Rockin’ In The Free World (Cover do Neil Young)

SETLIST 04/11/2011

1- Go
2 – Do The Evolution
3 – Severed Hand
4 – Hail Hail
5 – Got Some
6 – Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town
7 – Given To Fly
8 – Gonna See My Friend
9 – Wishlist
10 – Amongst Waves
11 – Setting Forth (Eddie Vedder)
12 – Not For You
13 – Modern Girl
14 – Even Flow
15 – Unthougt Unknown
16 – The Fixer
17 – Once
18 – Black

Bis
19 – Just Breathe
20 – Inside Job
21 – State Of Love And Trust
22 – Olé
23 – Why Go
24 – Jeremy

Bis
25 – Last Kiss (Cover de Wayne Cochran)
26 – Better Man
27 – Spin the Black Circle
28 – Alive
29 – Baba O’Riley (Cover do The Who)
30 – Yellow Ledbetter

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3 Comments Add yours

  1. Larissa says:

    Wow! Ficou muito boa a sua crítica!
    Fotos por “moi” hahaha.

    1. palavrasemvertigem says:

      Valeu, sister! ♥

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