Crítica Musical: Rock in Rio – Segundo Dia

O segundo dia do Rock in Rio foi o primeiro que fez jus ao nome do festival: as atrações confirmadas deixavam de lado as danças sensuais e a balada a céu aberto que marcaram o dia anterior para dar lugar às guitarras e a um público ávido por uma vibe mais pesada. Muitas surpresas foram reveladas ao público, com destaque maior para o Stone Sour e o projeto paralelo de Mike Patton, que aliás foram vítimas de uma falha na organização do evento e tiveram que tocar praticamente no mesmo horário. Vamos aos detalhes:

PALCO SUNSET

Crédito: Terra

O Palco Sunset do evento contou com bons nomes da música. Marcelo Yuka, que já foi baterista do Rappa antes do acidente que o deixou tetraplégico, tocou com Cibelle, Karina Buhr e Amora Pêra. O Nação Zumbi subiu ao palco acompanhado de Tulipa Ruiz, e logo cederam a vez à competente cantora e contrabaixista Esperanza Spalding. Considero ela uma boa aposta no mundo da música e acho que todo mundo deveria conhecer melhor seu trabalho, que traz grandes influências do jazz. Os problemas de sua performance foram a qualidade do som (estava muito baixo) e Milton Nascimento, que veio junto no pacote. Reconheço que ele teve seu papel no cenário da música brasileira, mas Milton dá grandes sinais de cansaço e praticamente fica apagado no palco. Mesmo assim, a cantora mostrou um ótimo trabalho. E apesar disso, Milton até conseguiu casar sua voz com a dela.

No entanto, o que realmente fez barulho no palco foi a apresentação de Mike Patton com seu projeto paralelo, o Mondo Cane. O vocalista do Faith No More surpreendeu o público e a crítica ao cantar em italiano. Sua performance incluiu um bom entrosamento com a banda e com a Orquestra de Heliópolis, além de uma total interação com o público. Como mencionei anteriormente, o atraso de seu show fez com que sua apresentação coincidisse com o show do Stone Sour, que tocava no Palco Mundo – o que talvez o tenha prejudicado um pouco (o que eu acho um verdadeiro abuso, pois acredito que todo mundo deveria conhecer e apreciar os dois projetos com bastante atenção). Isso não impediu Patton de brilhar e ainda tirar sarro do assunto: xingou a banda e a organização e pronunciou os educados dizeres “PORRA, CARALHO” (sim, em português mesmo). Como brasileiro não pode deixar escapar uma coisa dessas, o fato foi parar no Twitter e virou Trending Topic.

PALCO MUNDO  

NX Zero

Crédito: Terra

O NX Zero foi a primeira banda a tocar no palco principal do festival. O grupo de pop rock melódico subiu quase que pontualmente para se apresentar (o início do show se deu com apenas cinco minutos de atraso). Comemorando 10 anos de carreira, Di Ferreiro e companhia se mostravam felizes em ter a oportunidade de comemorar o feito tocando em um evento de tamanha proporção. No entanto, os membros da banda se depararam com um episódio bem chato, onde uma pequena parcela do público vaiava. Tenho pra mim que essa atitude é imperdoável: uma verdadeira falta de respeito com os músicos e com a parte do público que realmente deseja assistir a apresentação.

Aliás, nesse ponto o povo brasileiro me parece muito contraditório: se diz feliz, agitado e receptivo com bandas de outros países, faz barulho quando os gringos erguem a bandeira brasileira e, estranhamente, desvaloriza artistas nacionais. Não gostar de uma banda é direito de todos. No entanto, desrespeitar o trabalho de outros grupos é algo inaceitável, descabível. Ás vezes, o indivíduo age por puro preconceito: ver uma apresentação de certa banda poderia muito bem mudar seus conceitos. E mesmo que nada disso aconteça, o simples fato de sair para tomar uma cerveja enquanto o som que não lhe agrada ecoa pela arena já resolveria todo problema. Dizem as más línguas que o grupo discutiu entre si na apresentação, o que teria encurtado o show para um pouco mais de meia hora de duração.

Deixando os contratempos de lado, o NX Zero mostrou uma boa performance. Com uma pequena falha no som (a bateria estava muito mais alta que os outros instrumentos), Di Ferrero mostrava um bom entrosamento com o público que lhe era fiel na arena: muitas pessoas cantaram num coro perfeito as músicas mais conhecidas do quinteto, mostrando uma cena bonita na qual sua voz afinada e suave se misturava à multidão. Talvez a boa recepção desse público tenha sido o motivo pelo qual os imaturos que os vaiaram no início da apresentação se calaram.

O show começou com a música “Só Rezo”. Tenho para mim que seja uma das melhores da carreira da banda, pois mostra uma pegada mais forte, acompanhada de uma letra que desvia do foco do romantismo. O baterista Dani deixou seu talento com as baquetas bem evidente: eu o considero um dos melhores músicos do grupo. O rapper Emicida fez uma participação especial, gravada no último álbum da banda, “Projeto Paralelo”. Apesar de não ter gostado muito desse trabalho mais recente, admiro a ousadia da banda de ter juntado elementos do rap à sua essência – como fez o Linkin Park e outras bandas que iniciaram o gênero do New Metal. Aliás: essa apresentação só serviu para reforçar minha opinião de que a banda possui músicos muito talentosos, mas que precisam de novos projetos que deixem todo seu talento evidente. Acredito que o NX Zero pode fazer muito mais em sua carreira do que encabeçar letras muito românticas, em refrões que grudam na cabeça. Espero mais ousadia nos futuros trabalhos, meninos!

A performance do grupo seguiu com músicas bem conhecidas, como “Pela Última Vez” e “Além de Mim”. O encerramento se deu com “Razões e Emoções”, onde o coro do público ficou ainda mais evidente. Musicalmente falando: eles foram muito bons.

Stone Sour

Crédito: Terra

Li uma menina no Twitter dizendo: “O público que vaiou o NX Zero é o mesmo que agora tá cagando de medo dos guturais do Corey Taylor”. ADOREI! Isso resume muito do que eu estava pensando sobre as vaias.

A banda paralela do vocalista do Slipknot, que também toca no festival, provocou um pouco de estranheza no começo. Isso se deve ao choque provocado pela mudança brusca de uma banda nacional mais melódica para outra internacional bem mais pesada. Os gritos potentes do vocalista se misturavam a um vocal limpo e muito bem afinado. Aliás, que voz linda!

De início, houve um contratempo provocado novamente pela falha no som: o microfone estava baixo em relação aos instrumentos. No decorrer do show, com o erro corrigido, Corey Taylor ( que estava sem a máscara de sua outra banda e deixou os cabelos loiros e os olhos azuis bem evidentes) mostrou um ótimo entrosamento com o grupo e com o público: deu uma aula espetacular de carisma. Andei lendo a crítica de vários veículos de informação, e muitos deles disseram que o cantor conseguiu cativar inclusive quem não conhecia a banda (como o UOL, que tá fazendo um ótimo trabalho na cobertura do evento).

Corey conversou muito com as pessoas, falou muito palavrão, arriscava algumas palavrinhas em português e ainda as convidava para “perder a cabeça” junto com ele. Entre músicas de seus últimos trabalhos, o Stone Sour ativou mesmo o público com suas músicas mais antigas. Entre elas, a balada “Bother”, na qual era possível ouvir bem a bela voz do vocalista, que ainda tocou guitarra. A belíssima “Through Glass” manteve a vibe calma antes de dar a vez para “Get Inside” (essas três músicas ficaram nos Trending Topics do Twitter). O encerramento do show se deu com “30/30 – 150”, com Corey completamente alucinado arrancando a camisa e deixando suas inúmeras tatuagens à mostra.

Um dos pontos mais altos da apresentação foi Mike Portnoy. O ex-baterista do Dream Theater, que também tocou com o Avenged Sevenfold no ano passado no início da turnê para substituir o falecido baterista The Rev, veio ao Brasil no lugar de Roy Mayorga – que ficou em casa por causa do nascimento de sua filha. A competência de Portnoy é absurda: foram apenas dois dias de ensaio, segundo Corey. Ouvi-lo tocar é sempre bom.

Desabafando: amo o Stone Sour e pegava o Corey Taylor fáááácil! (Deixei isso bem claro aqui quando o coloquei na lista dos 20 homens mais “sexy” do rock. Aliás, agradeço aos comentários: foi o post que mais repercutiu aqui!).

Capital Inicial

Crédito: Terra

Devo dizer que o Dinho Ouro Preto deu um verdadeiro SHOW! Eu tinha assistido a apresentação do Capital Inicial no ano passado, no segundo dia do SWU (onde eles tocaram antes do Sublime With Rome) e vou confessar: não chamou muito a minha atenção. Achei que o Dinho ainda estava meio sequelado do acidente (quando ele caiu do palco, lembram?). A voz dele estava um pouco fraca e ele dava sinais de cansaço depois de tantas internações. Além disso, o show do Capital foi marcado por uma grande quantidade de músicas novas, o que esfriou um pouco o público do SWU. Mas enfim, a realidade é que eu estava pensando que o Capital não daria muita conta do recado – e me enganei.

Com um repertório que incluía músicas do início da carreira, como “Fátima”, a banda levantou o Rock in Rio. Dinho contou com a ajuda de um guitarrista novo e cabeludo nos backing vocals, e o cara mostrou competência. Sua voz chegava até a se sobrepor à dele em alguns momentos. Conversando com o público em expressões como “velho” e “cara” usadas em excesso, Dinho chegou a interromper o show quando percebeu que algumas pessoas passavam mal. Gargalhei alto quando ele pediu: “Vocês aí da casa do caralho, vamos dar um passo pra trás que a galera tá se espremendo aqui na grade”. Com isso, uma grande quantidade de garrafas de água foi distribuída para a plateia.

O ponto mais alto do show, para mim, foi o clássico do Aborto Elétrico, “Que País É Esse” – que fez sucesso na voz do Legião Urbana. Com um discurso político bem engajado, Dinho mandou um foda-se para a corrupção e levou o público ao delírio com os dizeres: “Ei, Sarney, vai tomar no cu!”. A repercussão do fato foi tanta que mesmo depois do show do Capital as pessoas continuavam gritando a frase, que também virou assunto no Twitter e entrou nos TT’s. Aliás, adoro quando bandas gritam contra o sistema político do país. Acho que hoje em dia falta gente que esteja por dentro desse mundo e que deixe claro sua discordância à injustiça cometida por alguns. Isso porque a música é uma excelente forma de desabafar sobre o assunto. Mas enfim, né…

Dinho ainda arriscou um cover de “Should I Stay Or Should I Go?”, do The Clash. O Rock in Rio quase veio abaixo com a ótima performance do cantor, que ainda deu início a uma das homenagens a Rafael Mascarenhas. “Ele era muito fã de Red Hot. A vida dele era isso e o skate”. Foi quando descobrimos que a banda principal do dia vestiria a camisa em homenagem ao filho de Cissa Guimarães, que morreu atropelado num túnel enquanto andava de skate. Achei lindo e digníssimo! A guerreira Cissa com certeza tem bons motivos pra ficar radiante.

Snow Patrol

Crédito: Terra

Antes de tudo: essa seria a hora que eu sairia para tomar uma cerveja. Não curto muito o som do Snow Patrol, e não porque os considere ruins. Na verdade, acho que eles são bem competentes naquilo que fazem. Mas é que esse estilo musical não é bem o que me agrade, e a organização do evento foi bem infeliz (outra vez) em colocá-los para tocar no mesmo dia que Stone Sour e Red Hot Chili Peppers. O público esfriou e demonstrou imaturidade e falta de respeito (de novo!) ao gritar “É Red Hot!” enquanto os caras tocavam. Que esperassem o show terminar pelo menos né…

A banda contou com a boa participação da cantora brasileira Mariana Aydar em “Set The Fire To The Third Bar” (acho o nome dessa música sensacional!). A música mais conhecida, “Open Your Eyes”, foi interrompida por causa do erro da banda, tido como incomum pelo vocalista (a guitarra falhou). Outra vez ela é tocada, dessa vez até o fim. Com certeza foi a melhor parte do show: foi a única música que verdadeiramente provocou um grande coro do público.

Em suma: talvez tivesse sido melhor colocá-los para tocar no dia do Coldplay. Acho que o tipo de som e de público tem muito mais a ver.

Red Hot Chili Peppers

Crédito: Terra

Encerrando a noite, o Red Hot entrou no palco com os gritos histéricos dos fãs. A banda mais aguardada da noite embalou hits conhecidos, como “Can’t Stop”, “Other Side”, “Under The Bridge”, entre outros. Tenho para mim que, apesar da apresentação ter sido muito boa, ficou faltando muitas músicas boas e conhecidas, o que deixou uma sensação de vazio dentro de mim.

Apesar de adorar o Anthony Kieds, devo dizer que nada me tira da cabeça que a verdadeira estrela do grupo é o baixista Flea. Dei altas gargalhadas com a performance maluca do cara, que era ovacionado pelo público. Aliás: acho que o Flea é um dos melhores baixistas do mundo. Poucas bandas deixam o instrumento tão evidente, além do que não são todos os baixistas que possuem a ousadia e a criatividade do músico norte-americano.

O guitarrista John Frusciante não veio para a turnê, como temia os fãs mais fanáticos do grupo. Mas foi bem substituído por Josh Klinghoffer, que se mostrava animado e bem entrosado com a banda. Tocou todas as músicas impecavelmente e ainda deu um auxílio para Anthony no backing vocal em algumas músicas (apesar do microfone estar bem baixo e sua voz sair quase inaudível.
Plantão mulherzinha:  achei o cara lindo. Adoro homens com essa pinta de largado.

Crédito: Terra

“Californication” e “By The Way” levaram o público ao delírio. Essa última foi a deixa para a banda fazer uma pausa e voltar com as camisetas que homenageavam Rafael Mascarenhas (essa atitude foi um sucesso!), ao som da música “Around The World”, uma das minhas favoritas (tá, a que eu mais gosto é “Suck My Kiss”, mas eu já desisti de vê-la). O encerramento se deu com “Give It Away”, com Anthony sem camisa mostrando que é um tiozão bem conservado (o corpo do cara é realmente adimirável, vai!).

Sem sombra de dúvidas: depois de tanto tempo de espera, o Red Hot Chili Peppers fez um show realmente histórico para os brasileiros ao tocar num festival de tamanha proporção.

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4 Comments Add yours

  1. Andressa says:

    fiquei muito triste de nao ter conseguido ver esse dia pela tv ao vivo nem pela internet,tive q me contentar em ver pela globo os shows cortados, então não vi o show do Stone Sour (que eu também AMO e eu também pegaria o Corey facilmente) inteiro! Mas vi toda a descrição do show aqui no blog…maas,para minha alegria,consegui de última hora ingressos pro dia 25 e consegui ver o Slipknot (e o Corey,mesmo que de máscara) e queria saber se você vai comentar sobre esse dia,porque adoro seus comentários e,não sei se pra você foi,mas pra mim foi o melhor dia até agora. bjs

    1. palavrasemvertigem says:

      Antes de tudo: muito obrigada pelo elogio! Não sabe o quanto isso significa pra mim!
      E que tudo, você conseguiu ver o Slipknot! Achei o show incrível, muito insano!
      Eu vou fazer um post, sim, sobre o terceiro dia (pra mim, o melhor do Rock in Rio). É que na semana fica um pouco apertado fazer isso, porque o trabalho e a faculdade consomem muito o meu tempo. Mas logo menos escrevo sobre o assunto.
      Quanto ao show do Stone Sour: a banda divulgou no Twitter o link no Youtube com o show deles na íntegra. Você pode conferir clicando aqui: http://www.youtube.com/watch?v=Adh3gCmVIsU&feature=player_embedded
      Espero que continue acompanhando o blog e comentando. Beijos!

  2. Andressa says:

    Muito obrigada pelo link… eu não sei se o multishow ai reprisar o show deles, então vou ver por aí mesmo! muito obrigada mesmo,bjs

    1. palavrasemvertigem says:

      De nada! =D

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