Crítica de Cinema: “Doce Vingança” é pra quem tem estômago forte

AVISO: CONTÉM SPOILER

Esse é o típico filme no qual você torce horrores pela vingança do protagonista, não importa quão mórbida ela seja. No entanto, devo dizer para não esperar muito de um típico filme de terror/suspense norte-americano. O filme tem uma boa fórmula, mas peca no desenrolar.

Antes de continuar a explicar os motivos que me levaram a ter essas impressões, devo justificar o por quê de ter esperado tanto tempo para escrever sobre um filme que estreou em março desse ano: nunca tinha visto nada que me chamasse a atenção, além da capa. Ninguém que eu conheço me recomendou, e até o trabalho dos críticos se mostrou um pouco ausente, pois não li nada que pudesse me levar a querer assistir esse filme.

Quem me incentivou foi minha irmã, depois de muito tempo. Mas não é culpa do público ou dos críticos: pouco se ouve falar desse filme porque ele foi um verdadeiro fracasso nas bilheterias. Mal sabia eu que na verdade era um remake de um longa de 1978 (“I Spit On Your Grave”, intitulado como “A Vingança de Jennifer” no Brasil). Censurado na época em vários países por causa do tema polêmico a ser abordado, deu a desculpa que faltava aos produtores dos filmes de terror contemporâneo a voltarem no filme, dessa vez sem cortes. E é justamente aí que ele peca.

i-spit-on-your-grave-iii-vengeance-is-mine
Crédito: Divulgação

O longa conta a história de Jennifer Hills (a novata Sarah Butler), uma jovem e bela escritora que se isola numa cidade do interior para escrever um novo projeto. Com isso, acaba chamando a atenção de um grupo de homens que trabalham no posto da cidade, visto que ela é a carne-fresca vinda de um centro urbano. Sem dar bola para o garanhão que lidera o grupo (interpretado pelo bonitão Jeff Branson), acaba despertando o sentimento arcaico e machista do grupinho, que arma um plano pra assustar a garota. Para tanto, contam com a ajuda do xerife Storch (Andrew Howard) que supostamente deveria ajudar a menina a se livrar das brincadeiras estúpidas do grupinho de garanhões, visto que é casado e pai de família. Ao invés disso, ele entra na jogada.

E o que era para ser uma brincadeira de mau gosto acaba se transformando num grave episódio de humilhação e estupro. O sofrimento causado na protagonista, visto pelo público com cenas fortes e muito explícitas (talvez usadas para despertar ainda mais a ira do espectador) só aumenta a expectativa pela tão aguardada vingança vista no título do filme. Todas as cenas fortes de tortura e mutilação feitas pela garota ganham a simpatia do público: a maioria sempre pronuncia frases como “bem feito” e gargalha ao ver o sarcasmo com que Jennifer conduz sua vingança. No entanto, faltou ao filme dar mais ênfase nessa reviravolta.

E o por quê da ênfase? Bom, nada me tira da cabeça que os produtores estão se aproveitando da falta de censura em cenas de mutilação. E o resultado que temos é muita matança e pouca história, num desenrolar rápido e superficial. Não que o filme seja ruim e seja desagradável, mas se o foco era chocar e chamar a atenção do público para o problema do estupro faltou elementos na vingança que convencessem. O estupro não é só uma agressão física: afeta profundamente o psicológico da vítima, precisando de acompanhamento médico para o resto da vida. Muitas vezes os danos provocados pelo crime são irreversíveis, e a vítima se vê condenada a enfrentar esses demônios que se apossam de sua mente pelo resto da vida. E é por isso que esse tipo de crime é cruel, brutal: expõe a vítima, afeta sua mente, humilha, corrompe. E a vingança planejada por quem sofre com isso é apenas a tortura física contra os seus agressores, seguida de morte. Morte? Me parece um destino muito mais pacífico do que viver por anos com pesadelos e problemas mentais.

7PILu6dljBeGC24ofJR0UiW9Gxt
Crédito: Divulgação

Eu esperava uma vingança muito bem arquitetada. Esperava que seus agressores tivessem que conviver com humilhações públicas, episódios de terror psicológico, castração e mutilação sem que a morte se seguisse depois. Pois conviver com a lembrança dessas humilhações é um castigo muito pior (até quando conduz sua vingança a jovem cria expressões melancólicas típicas de quem sofre de problemas do tipo, o que foi muito bem conduzido pela atriz). E deve consumir o praticante desse crime por muitos anos.

E é isso que falta nos roteiristas e produtores: tramas bem executadas, de tirar o fôlego do espectador. Pois me parece que a preguiça tomou conta do cinema, a ponto de se importar mais com cenas violentas e exageradas de mutilação (muitas vezes extremamente falsas) do que com o desenrolar inteligente da trama. Se o filme vale a pena? Vale. Tem uma boa proposta, uma doce vingança. Mas é um pouco vago, a ponto de você pensar que o castigo executado pela protagonista, apesar de extremamente brutal e sanguinolento, é muito fraco perto do que ela sofreu. E na boa: não gosto de terminar de ver um filme de terror/suspense com a sensação de estar “traumatizada”.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s