Crônica: Diálogo imprevisto no ponto de ônibus

Estava esperando por uma carona quando ela chegou. Pode não ser muito apropriado esperar por um carro num ponto de ônibus um tanto quanto movimentado, mas não me sobravam outras opções: todas as outras ruas estavam um pouco desertas por causa do horário. Passava das oito horas da noite, e eu não tinha a mínima vontade de parar em nenhum lugar fechado, pois sabia que minha mãe chegaria em poucos minutos para me buscar. E poucos minutos foram tempo suficiente pra uma certa senhora me abordar.
– Oi, tudo bem? – disse ela ao chegar no ponto. Disse isso de uma forma tão íntima que quase parecia que me conhecia. Perguntei-me mentalmente se já a havia visto em algum lugar e não estava reconhecendo-a.

– Tudo bem e você – respondi um tanto quanto confusa, pois não reconhecia nada de familiar naquelas feições. Seu rosto era marcado por rugas, e fechou-se numa expressão furtiva ao ouvir minha pergunta.

– Não está nada bem – respondeu. Aliás, fiz uma reflexão sobre o “tudo bem”. Pra mim, sempre me pareceu mais um cumprimento, algo cordial e automático. Não significa que você queira saber como a pessoa está de verdade, isso você deixa para saber numa conversa franca acompanhada por uns bons copos de cerveja. Porque dependendo da história, lidar com os problemas dos outros pode ser um desafio que exige muito de sua força mental.
Sua resposta fez com que eu arregalasse os olhos, mas não foi o suficiente para intimidá-la. Aproximando-se de mim, sentou-se ao meu lado na cadeira do ponto e pôs-se a disparar xingamentos a uma casa de decoração.

– Tô quase fazendo plantão nessa merda. Não aguento mais ter que vir aqui todo dia pra resolver pepino. Porque é isso que essa porcaria é: uma merda!

Ela respirou fundo e observou o movimento ao redor.

– O Terminal Capelinha já passou aqui?

Respondi que não, mas que deveria chegar logo. Minha língua coçava para pedir que ela ficasse atenta ao movimento e me esquecesse ali, mas minha educação não permitia.

– Então menina – continuou ela enquanto cutucava minha perna pra chamar minha atenção – Faz um tempo que eu vim aqui para escolher uma porcaria de um piso pra reforma da minha casa. E esse povo nunca resolve meu problema. O piso veio numa tonalidade diferente. Era só trocar. Mas não, eles complicam a vida de todo mundo!

E desatou a reclamar daquela casa de decoração. Disse que eles nunca resolviam seu problema. Gritava que aquele lugar era uma merda. Aliás, ela repetia muito essa história, a ponto de fazer minha atenção dispersar para outras coisas: eu só pensava em ir embora e me livrar daquela conversa.

Pra minha má sorte, ela parecia notar quando eu dispersava minha atenção: voltava a me cutucar e a aproximar o rosto bem perto do meu a ponto de quase gritar: “Tá me entendendo?!”. Eu confirmava e voltava a ouvir suas reclamações. Em pouco tempo, descobri muitas coisas sobre sua vida.  Dentre elas uma birra com a nora: o filho havia se casado há pouco tempo, e ela reclamava que ele fazia tudo que a esposa pedia e a deixava de lado.

– Porque antes dela, ele ficava grudado em mim. Fazia tudo por mim. E agora vive em função daquela lambisgoia. E eu não tenho mais ninguém, porque só tive ele.
Ah! O carma de ser filho único e homem. As mães mais carentes se apegam neles de um jeito… Fiquei com dó do rapaz.

Depois ela me explica que pegou mágoa do filho depois do episódio com os pisos. Descobri que ele mora na região do Ipiranga na cidade de São Paulo e que ganha um bom dinheiro no emprego dele. Ela reclamou da recusa dele de visitar outras casas de decoração antes de fechar a compra do piso, e reclamou da ausência dele na hora de resolver o problema. Disse que ele tinha dinheiro o suficiente para ajudá-la, e que podia muito bem arrumar tempo para resolver o assunto. Enquanto dizia isso, ela me mostrava um quadrado do piso dentro da sacola dizendo que havia comprado o modelo mais caro da loja. E deixava sua revolta tomar conta da conversa: voltava a me cutucar, a falar gritando muito perto do meu rosto e a bater a sacola com o piso contra o banco do ponto de ônibus, fazendo-o tremer.

Créditos: /sarasiobhan
Créditos Sara Siobhan

– Meu filho nem quis mais saber do problema. Eu tenho que vir aqui sempre pra tentar resolver isso enquanto ele fica no bem bom com aquela desgraçada. Também não quero mais saber dele, vou ficar um ano sem nem ligar. Só ligo se ele tiver doença.

Eu concordava com a cabeça sem esboçar nenhuma outra reação. Por fim, o ônibus que ela esperava chegou. Ela encerrou o  assunto, levantou-se e acenou:

– Tchau, linda. Obrigada.

Eu respirei fundo vendo o ônibus partir, e então relaxei. Só então percebi que estava quase deitada no banco: devo ter fugido muito dela enquanto ela gritava perto do meu rosto, ficando completamente jogada e inclinada.

Por mais louca que ela pudesse parecer, creio que o agradecimento no final tenha feito muito sentido: ela estava com raiva, e precisava extravasar isso com alguém. Pensou em contar tudo para a primeira pessoa que aparecesse. E era eu quem estava naquela ponto de ônibus…

Penso em quantas pessoas fazem isso: querem desabafar seus problemas e acabam fazendo isso com desconhecidos. Não discordo completamente da prática, mas acho que nunca importunaria ninguém que eu não conheça com os meus problemas dessa forma. Acho indelicado.

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