Amy Winehouse (e a dor de perdê-la)

Uma voz potente surge no mercado da música contemporânea. Uma voz que remete aos tempos antigos, onde negras americanas encantavam o mundo com a força de suas vozes e brancas britânicas aderiam à moda com suas vozes igualmente bonitas. Uma voz marcada pelo desgaste, pela auto-destruição, que foi abaixando seu volume aos poucos no decorrer dos anos até se calar completamente – e de forma precoce.

Amy Winehouse teve um papel digno no cenário musical: críticos de música (e pessoas que entendiam do assunto) a apontavam como a mulher que ressuscitou a Soul Music. É fechar os olhos e se sentir no movimento que marcou época há alguns anos atrás. Seus cabelos criaram moda, bem como seu estilo meio pin-up, marcado pelas roupas e pela maquiagem. E como se esquecer de suas tatuagens? Qualquer um conseguiria reconhecer a cantora só de olhar para a mulher nua tatuada em seu braço; ou para o nome “Blake” escrito acima de seu seio esquerdo.

Aliás, foi com Blake que essa figura significativa protagonizou as cenas mais tristes e escandalosas: um rapaz viciado em drogas que assumiu publicamente a responsabilidade de ter apresentado Amy ao obscuro mundo do vício. A mulher que amava, e que era correspondido da mesma forma intensa e doentia, como o amor absurdo que marcou o relacionamentos de rockstars, bem como de Kurt Cobain e Courtney Love; ou Sid Vicious e Nancy. Aliás, Blake e Amy se assemelhavam mais à Sid e Nancy do que de qualquer outro casal: intensos, punks, brutais e doentios.

Com o álbum “Frankie”, mostrou que era competente no que fazia. De aparência saudável, curvilínea e comportada tornava a missão de imaginá-la  como uma artista junkie quase improvável. Quase. No fundo, já tinha se atormentado com pensamentos suicidas, comportamentos estranhos e perturbados, refletidos no hábito da automutilação.

Amy Winehouse: 14 de setembro de 1983 – 23 de julho de 2011 | Crédito: Divulgação

Com o álbum “Back To Black” já mostrava uma discreta decadência física. O hit “Rehab” ecoou pelos quatro cantos do mundo, alavancou o reconhecimento absurdo e merecido da artista, com sucesso de público e crítica através de seu desabafo de não querer ir para uma clínica de reabilitação. Pedido que deveria ter sido ignorado no começo.

Casou-se com Blake Fielder-Civil, afundou de vez nas drogas, protagonizou barracos e escândalos diante dos paparazzi, teve vídeos que expunham sua imagem de viciada em drogas ao mundo, definhou. Perdeu peso, dentes. Perdeu sua mente. Perdeu-se.

Separou-se de seu marido e grande amor. Afastou-se da música para poder se tratar. Aparentemente saudável, foi uma questão de tempo até voltar a protagonizar cenas polêmicas. Realizou shows que deixavam a desejar (como os de sua turnê no Brasil). Esquecia letras, caía, desafinava. Uma imagem absurdamente triste de uma artista incrivelmente talentosa. E sua voz já estava baixa, quase inaudível. E então calou-se.
Uma manhã de sábado. O choque brutal diante da perda de uma artista, um ícone da música. O mundo despediu-se da imagem de uma cantora marcante, cuja voz estará presente para sempre naqueles que admiravam a beleza de seu timbre.

E muitos não se deixaram surpreender pela perda. Já eu não consegui acreditar no previsível: jurava que ela conseguiria se libertar de seus demônios, que seguiria na música surpreendendo o público com seu talento. De certa forma, ela se libertou – e voa tranquila por aí. Nós é que perdemos: a diva, o ícone, a cantora. E sua voz tão linda e marcante.

Me sinto bem triste por presenciar e acompanhar a partida de um ícone aos 27 anos. Tão cedo, como tantos outros amores musicais.  Que siga em paz, com flores pra te confortar.

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