Crítica de cinema: filme “Bruna Surfistinha” é bafônico!

Assisti esse filme há quase um mês, mas sempre ficava na dúvida se postava uma crítica. Tudo isso porque ficava indecisa se tinha ou não gostado mesmo do filme.

Já tinha lido O Doce Veneno do Escorpião – livro que inspirou o filme da garota de programa mais famosa do país – e achei bem interessante. Não somente por causa da riqueza de detalhes na qual Raquel Pacheco descreve seus programas (querendo ou não, dá pra colher boas dicas de um livro desses, e sexo é um assunto que quase nunca dá tédio), mas por causa da abordagem da própria vida dela. Penso que não deve ter sido fácil encarar as próprias memórias pra poder relatar o lado pessoal e emocional da vida que aquela mulher levava. Estar a par dos sentimentos que a acompanharam quando ela tomou essas decisões foi bem interessante.

Crédito: Divulgação

Por causa disso, pensei que o filme teria a proposta de ser bem fiel ao livro. Mas os roteiristas aproveitaram a essência para construir muitas partes inventadas na história, as quais me deixavam confusas.

Primeiramente: no filme, a estudante Raquel tem um irmão que não facilita nada sua vida. Por ter sido adotada, ela é alvo frequente de provocações e xingamentos que acabam aborrecendo a ela e aos pais. Na história original, esse irmão não existe, e são as brigas entre os pais que incomodam a menina. O ponto crucial para a decisão de sair de casa veio depois dos pais terem descoberto que ela roubou as joias da mãe, o que resultou numa surra e um afastamento maior na relação entre eles. Raquel relata que criou esse hábito de roubar joias pra comprar drogas, e é daí que inicia o consumo de cocaína.

No filme, o retrato da espelunca na qual ela vai trabalhar traz a imagem de maior interação entre as prostituas, o que eu não consegui imaginar no livro. A cena inventada da garota de programa do salão de beleza imitando os gemidos que as mulheres fazem durante o programa é bem engraçada: achei bem legal ela ter sido colocado pra descontrair e trazer um pouco de comédia num filme com um tema tão polêmico. O crescimento de Bruna como profissional do sexo faz com que ela ganhe mais dinheiro do que as prostitutas que convivem com ela.

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

Na noite, é ela quem mais chama a atenção entre as outras, e acaba cativando a atenção de uma mulher que se torna um dos pontos principais para a decadência de Bruna nas drogas, pois influência no consumo e na vida desregrada ao levá-la para várias baladas, conhecendo diversos clientes. Entre uma cena e outra de história, a alta voltagem de sexo toma conta da tela – o que me deixava extremamente constrangida tendo meus pais e minha irmã do lado (aliás, minha irmã estava tão tranquila que me surpreendeu). Apesar de mostrar os muitos clientes, acho que as cenas ficaram meio superficiais: você enxerga muitos programas, mas não consegue ver intensidade e detalhes nas cenas. Pra mim, valeria mais encurtar as cenas com vários clientes e focar mais em um ou outro encontro. Senti falta das cenas nas quais Raquel descreve o programa em casas noturnas em riqueza de detalhes, bem como o relacionamento com outras mulheres.

O envolvimento da personagem com a cocaína foi bem relatado, e as cenas foram bem intensas. Gostei de ver como a mulher que cresceu como prostituta e foi morar num flat elegante acabou afundando mais e retornando à casas de prostituição podreiras. Gostei de ver também a forma como ela ficou conhecida através do sucesso do seu blog retratando o dia-a-dia da profissão e até dando notas para o desempenho dos clientes. Acho que essa cena ficou bem fiel à vida real que a personagem relata.

E no meio de toda a putaria, eis que a personagem cria um relacionamento mais afetivo com um dos clientes, o primeiro que ela atendeu. Só fico na dúvida se ele supostamente deveria ser um namorado qualquer ou o cara pelo qual ela se apaixona e abandona a vida de garota de programa. O final do filme pouco esclarece o que supostamente aconteceu (assistam para saber).

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

Fora isso, achei que Deborah Secco se entregou muito ao papel. Foi ousada e incorporou a personagem, sem medo de ser feliz. Vi intensidade na sua atuação, e gostei do jeito como conduzia as emoções da personagem, hora se divertindo na noite paulistana, hora sofrendo com os vícios e a vida dura. O filme conseguiu, emfim, atingir o apelo dramático: mostra que apesar de Bruna ter escolhido a vida do sexo, as coisas não foram um mar de rosas. Mostrou o lado ruim que perturba emocionalmente a pessoa ao mostrar o irmão que a encontra num programa e a humilha. Acho que leva até a uma reflexão: apesar de termos o livre arbítrio pra escolher certos caminhos, não serão esses caminhos mais fáceis de suportar. Prova disso foi a declaração de Raquel Pacheco de reconhecer seus próprios erros e até de se arrepender das escolhas que fez.

O fim do filme teve um ponto forte que me agradou muito: a cena da personagem caminhando pela rua com aquela cara de quem sofre e reflete sobre a vida ao som de “Fake Plastic Trees”, do Radiohead. Foi, sem dúvida, fechar com chave de ouro, apesar de outros contratempos. De certa forma, vale o ingresso. E se estiver acompanhado e em dias que as vontades ficam à flor da pele, se prepara pra querer correr pro motel logo depois.

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