Crônica: Flores à beira da janela

A garota estava entediada. Sentada no sofá da sala, passava por vários canais de TV, apertando as teclas do controle remoto ferozmente – sem realmente ver nada na tela. Os olhos estavam marejados de lágrimas, e um bolo amargo se formava em sua garganta.

Dias e dias se passavam sem que ela se livrasse do peso da culpa em suas costas. Sentia a amargura de sobreviver enquanto parte de seu coração era levado brutalmente para longe de seu corpo, despedaçado e arrancado sem nenhuma piedade. Ela sentia-se sangrar, como se um arranjo de espinhos fosse posto ao redor de seu corpo, apertado contra sua pele delicada. Sem poder se conter, ergueu-se do sofá, atirando o controle remoto para longe com tamanha força que não evitou que este se despedaçasse. Andou a passos duros até a janela, tantas vezes abrigo de suas decepções e amarguras. Abrindo o vidro com força, pendeu a cabeça para fora apoiando o corpo contra a parede – estava quase pendurada para fora da janela do apartamento. Imediatamente, as gotas da chuva fria se confundiram com suas lágrimas, lavando seu rosto fortemente.  Ela gritou, como se sua voz fosse trazê-lo de volta:

– Por quê? Deus, por quê?!

Suas perguntas a confundiam: não sabia se a dirigia para Deus, para os outros ou para si própria. A realidade e a saudade se comprimiam dentro de seu peito, como se o sentimento de culpa lhe fosse obrigatório. Durante muito tempo, permaneceu inclinada na janela, gritando e chorando dolorosamente. Até que seus gritos foram cessados, e o cansaço a venceu levando-a para sua cama e fechando seus olhos.

white roses
Crédito: Divulgação

Era uma noite muito parecida com aquela tarde melancólica quando tudo aconteceu. Voltavam de uma festa, vencidos pelo cansaço. Estavam quase que completamente lúcidos na estrada, conversando alegremente, comemorando o sucesso da festa de casamento. A estrada escura se perdia no meio da chuva, conduzindo-os até o destino trágico que selaria a noite. O aeroporto os esperava, levaria-os para a lua-de-mel que nunca seria vista. Ele ergueu sua mão pálida e delicada e levou-a até os lábios, beijando-a suavemente.

– Não importa o que aconteça daqui pra frente, eu sempre vou te proteger.

Ela sorriu, e beijou sua mão em resposta.  Olhou para o banco traseiro do carro observando o arranjo de rosas brancas impecavelmente preparado por suas amigas, como um último gesto de presente. Trazendo uma das rosas para si, inspirou o perfume delicado.

– São suas favoritas, não? – perguntou o marido.

SEU marido. Recém casados. Satisfeita em poder pensar daquele jeito, ela sorriu em resposta, incapaz de falar tamanha a felicidade que se apossava do seu ser. Eles se perderam olhando um para o outro, mal vendo quando um caminhão desgovernado corria na contramão.

– Eu te amo – sussurrou ela.

– Eu te amo também.

Essa foi a última coisa da qual ela se lembrava quando a escuridão a atingiu. E então, tudo se resumiu à tristeza, ao afastamento do mundo que a cercava. Ela mergulhou na solidão, ignorando a compaixão de todos os outros que tentavam se aproximar. Tudo se resumia em depressão e culpa.

Ela dormia profundamente pela primeira vez em muitos dias. E então, sonhou: o sol brilhava em uma campina florida, repleta de pássaros cantando. Embaixo de uma árvore, um par de enormes asas brancas anunciava a chegada de um anjo. Ela se sentiu calma e protegida, enquanto seu coração era lentamente aquecido. Uma luz branca impediu que ela visse o rosto do anjo antes de despertar na manhã.

A chuva continuava, porém era acompanhada pela presença do brilho fraco do Sol. A luz refletia na janela semi-aberta, onde um buquê de rosas brancas a esperava.

Ela suspirou assustada, para novamente sentir o calor acalmando seu coração. E sorriu, sentindo a proteção que a envolvia, lembrando-se da singela frase que a acolheu na noite do acidente.

– Não importa o que aconteça daqui pra frente, eu sempre vou te proteger.

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