Covardia – uma crônica sobre a violência urbana

A manhã nublada e úmida nunca me pareceu o palco ideal para apontar armas. Aliás, não consigo imaginar sequer um cenário que poderia abrigar tamanha covardia. Moradores de favelas sempre se deparam com esses barulhos, que os impedem de dormir, que os desesperam. Moradores de centros urbanos são iludidos: mesmo atrás de muros gigantescos e dentro de shoppings repleto de seguranças, são alvos fáceis para esses marginais.

Hoje de manhã, em plena marginal Pinheiros, com carros e mais carros buzinando e sofrendo com o caótico trânsito dessa cidade conturbada, me deparei com um grupo de motoqueiros nojentos. Sim, nojentos: é um tipo de adjetivo forte, mas pouco capaz de expressar a minha raiva diante de seres humanos que nem sequer merecem esse atributo. Se bem que, nos últimos tempos, com tamanha injustiça, duvido muito que o termo humanidade possa ser associada a alguma coisa boa: penso na crueldade com animais, nos estupros, assaltos, assassinatos por motivos banais, e sinto vergonha por pertencer a essa raça condenada.

Li uma vez em um livro que roubar é o pior de todos os crimes: quando você rouba o dinheiro ou as coisas de uma pessoa, está lhe roubando o que é dela por direito; quando você mata uma pessoa, está roubando dela o direito de viver; e por aí vai…

morning
Crédito: Divulgação

Mas o que mais me impressionou nessa manhã nublada com esse arrastão feito por tantos homens foi a covardia: observando o grupo de motoqueiros que cercava um carro, um homem se aproximou das motos para saber o que estava acontecendo, achando que alguém tinha se acidentado. Qual foi seu espanto ao reparar nas armas e ser brutalmente expulso por aquelas criaturas, que ao perceber que o taxista resistia, não hesitaram em disparar tiros para frente a fim de assustá-lo, pouco se importando se a bala tivesse acertado um carro e ferido (ou pior, matado) uma pessoa. A frieza é irmã deles.

E eis que questiono a subliminar expressão “direitos humanos”. É irônico escutar esse termo. E mais irônico ainda é escutar pessoas que defendem assaltantes dizendo que muitos não tiveram oportunidades na vida, e atribuem até mesmo o lugar onde vivem (favelas, ruas, etc) como uma das razões de sua covardia. Eu rio disso, e me revolto: se pessoas de comunidades carentes escolhem trabalhar, entrar para um orquestra e ser alguém na vida, como atribuir essa moradia como uma das causas de suas baixas atitudes? As escolhas cercam todos os seres humanos, as oportunidades estão aí para todos, ainda que para alguns esteja um pouco mais escondida.

Me deparo com crianças que escolhem o caminho do crime por esse lhes parecerem mais fáceis. E questiono a índole humana de ir sempre por esse caminho por pura acomodação, por medo e preguiça de lutar. Muitos vão discordar e virão com discursos mirabolantes pra cima de mim. Mas eu vou insistir na ideia: o crime não é justificado. Nada deve servir de razão para explicar a crueldade e a covardia desses atos.

Depois de assaltarem o taxista hoje, os motoqueiros não se cansaram e cercaram uma porção de carros. Eu tive a reação covarde da maioria das pessoas: me espantei e observei, nem nada fazer. Tentamos ligar para a polícia, porém o telefone estava congestionado (certeza que as ligações eram das outras pessoas perto de mim indignadas com a cena). Um homem se esquivou e desviou o carro, quase atropelando um motoqueiro, se recusando a entregar o que quer que fosse. O motoqueiro se irritou e bateu com a arma no vidro do carro, mas já era tarde: o homem conseguiu fugir.

– Palmas pra ele, foi corajoso – falei no carro, com a voz trêmula.

– Foi uma reação de instinto, mas muito perigosa: esses marginais não têm nada a perder quando apontam a arma pra alguém. Não foi tão corajoso assim, ele poderia morrer – rebateu meu pai.

– Sim, foi corajoso – retruquei – Ele não teve uma reação típica de nós: ele reagiu. Prova de que ainda existem pessoas que não ficam à mercê desses bandidos.

E isso calou palavras e novos pensamentos. Por que somos mais covardes que os bandidos por não lutarmos e entregarmos nossos bens nas mãos desses cretinos preguiçosos que não se atrevem a lutar pela dignidade de ser alguém na vida.

Por que temos medo de morrer. Mas fazemos pior, porque vivemos calados.

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